Publicado em 09/04/2019 por Jornal O Tempo
Notícias da FAP/MG
Não podemos votar a reforma do jeito que ela está, afirma deputado Vilson da Fetaemg

09/04/2019 - Em entrevista ao Café com Política, da rádio Super 91,7 FM, o deputado federal Vilson da Fetaemg, eleito pelo PSB de Minas Gerais, critica a proposta de reforma da Previdência para os trabalhadores rurais apresentada pelo governo Bolsonaro e diz que está trabalhando por mudanças no texto antes da votação.

 

 

Qual a opinião do senhor sobre a proposta de reforma da Previdência que tramita hoje no Congresso Nacional?

 

Se o governo quiser mandar para o Congresso uma reforma para aqueles que não estão pagando, para quem tem regalias neste país, vamos dialogar, vamos discutir.

 

Mas, desde Temer para cá - e olha que Bolsonaro dizia em campanha que Temer era maluco, que era uma "sacanagem" -, ele (Bolsonaro) manda para o Congresso uma proposta pior, um pacote pior. O que eu quero dizer é que não podemos aceitar que seja mudada, no meu caso, como agricultor familiar, (a aposentadoria) dos rurais: a mulher, 55 anos, e o homem, 60 anos.

 

Foi uma conquista nossa na Constituição de 1988, com lei regulamentar em novembro de 1992. Porém, temos que entender o que era o Brasil antes da aposentadoria rural e o Brasil depois da aposentadoria rural. E por que defendemos que a trabalhadora rural, a agricultora, continue se aposentando aos 55 anos? Porque a mulher do campo tem dupla e tripla jornada de trabalho, e nós não começamos a trabalhar depois dos 18, 19, 20 anos.

 

Eu comecei meu trabalho na roça, minha vida laboral, com 7 ou 8 anos de idade. Então, começamos muito cedo. Se você computar isso, nós não conseguimos, uma mulher não consegue chegar aos 60, 65 anos (trabalhando). É diferente das demais categorias.

 

 

Sobre esse ponto, o presidente Jair Bolsonaro recuou, dizendo que poderia diminuir a idade de aposentadoria para as famílias rurais. Como o senhor analisa essa possibilidade?

 

Nós estamos fazendo, claro, muita pressão. Tenho dialogado com todos os partidos que compõem e não compõem a base do governo. Existem aqueles que não têm nenhuma proposta, outros têm. E nós temos proposta.

 

Quando 13 partidos da base aliada do governo assinam um manifesto para dialogar, para votar a reforma da Previdência, que tem que deixar fora os rurais e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que é um salário mínimo a partir dos 65 anos, isso não dá. O governo percebeu a movimentação, nossa organização, ele sabe que temos força no Congresso.

 

Os parlamentares sabem que, se eles votarem (a reforma) do jeito que está lá, vão perder na base, porque a foto deles estará nas ruas. As entidades sindicais, os movimentos, as centrais sindicais, as confederações vão colocar, porque, na hora de buscar o voto, o parlamentar fala que está do seu lado. Agora, como eu estou do seu lado se na hora de votar no Congresso eu voto contra você?

 

 

E quais seriam as articulações necessárias para tentar mudar o texto da reforma da Previdência?

 

Nós não estamos apenas fazendo discurso político, estamos discutindo a questão técnica. Na semana passada, nosso partido entrou com um projeto de lei para a tributação de grandes fortunas aqui, no Brasil.

 

Temos 25 mil famílias no Brasil cujas receitas passam de R$ 1 trilhão. A média mensal da receita delas é de R$ 340 mil. Aí o governo não mexe com esse pessoal e quer mexer com quem ganha um, dois salários mínimos? É o professor, o metalúrgico, o pedreiro, o carpinteiro, o motorista que tem que "bater um volante" a vida inteira com essas estradas precárias que nós temos. Então, nosso debate não é só político.

 

Temos debates técnicos e provamos que a Previdência não pode ser mudada do jeito que eles estão pensando.

 

 

E qual seria o modelo ideal de reforma da Previdência?

 

Acho que a primeira coisa é o governo sentar para dialogar com a sociedade civil organizada, com as confederações, com as federações que representam os segmentos, com as centrais. Não é mudando o foco, mas hoje (ontem) fiquei assustado com uma entrevista do governador Romeu Zema, falando que tem que vender a Copasa, tem que vender a Cemig.

 

Olha, se os governos estadual e federal começarem a vender tudo, acabar com tudo, aí eles podem ter superávit, mas não é isso que queremos.

 

O Estado tem que ter uma função, e a Previdência Social é um patrimônio da classe trabalhadora, do campo e da cidade. O que estão propondo agora na reforma é o seguinte: quem vai pagar a Previdência é apenas o trabalhador. O patrão fica fora, e o governo fica fora.

 

Essa Previdência nós não queremos.

 

 

O senhor questiona o déficit da Previdência?

 

Nós temos consultores independentes que já mostraram números para nós. Não só para mim, para nossa bancada.

 

Estamos chamando especialistas para fazer esse debate.

 

Quando você toca nessa questão, o governo foge da discussão. O governo sabe que recuar, mantendo o homem com 60 anos, a mulher com 55 e o BPC, ele pode ter certo sucesso no Congresso Nacional. Mas eu quero chamar atenção.

 

 

O Congresso tem força para mudar os pontos mais polêmicos da proposta apresentada pelo governo?

 

A força do Estado brasileiro está no Congresso, nos 513 deputados e deputadas que estão ali na Casa com os mais variados partidos políticos. O Congresso tem que ter neste momento muita responsabilidade com o Brasil que temos e o Brasil que poderemos ter. Não queremos um Brasil do Estado mínimo, vendendo tudo, não tendo obras, não tendo investimento na educação, na saúde.

 

O Brasil é um país continental, rico, trilionário, e estamos reféns de alguns poderes aqui, no nosso país.

 

 

Audiência pública na Assembleia de Minas vai discutir a proposta de reforma da Previdência do governo. Quem vai participar desse debate?

 

Nós convidamos o senador Paulo Paim (PTRS), uma grande liderança nacional que acompanhamos desde 1986, quando ele teve o primeiro mandato enquanto deputado constituinte no Congresso. Ele é um metalúrgico, mas tem contribuído muito conosco, os rurais. Além dele, a nossa federação, a Fetaemg (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais), e o deputado estadual Celinho do Sinttrocel (PCdoB).

Ver convite abaixo.

 

 

Apesar da crise de articulação vivida pelo governo Bolsonaro, o apoio à reforma da Previdência está crescendo na Câmara. O senhor teme que o projeto seja aprovado com pontos tão polêmicos, como a aposentadoria dos trabalhadores rurais?

 

Acho que temos que estar preparados para tudo na vida. A nossa vida é um grande aprendizado.

 

Vamos ter que redobrar nossas forças dentro do Congresso, até para convencer parlamentares, colegas nossos que estão lá de outros partidos, de que não podemos aceitar votar essa reforma do jeito que ela está. Não queremos retrocesso.

 

 

Temos um quadro no programa chamado "De bate - pronto", com perguntas objetivas e respostas objetivas. Então, vamos começar. Articulação do governo Jair Bolsonaro?

 

Ele tem conversado com todas as lideranças, não só da base dele, como de outras bases.

 

Reforma da Previdência?

 

Sou radicalmente contra o pacote que está (tramitando no Congresso).

 

Ex-presidente Lula?

Preso injustamente. É um preso político. Se não fosse, outros teriam que ir para a cadeia também.

 

Crise econômica?

Quem faz a crise não é povo, a classe trabalhadora. É a má gestão dos governantes.

 

 

 

"Os deputados sabem que, se votarem a reforma do jeito que está, vão perder na base, porque a foto deles estará nas ruas."

 

"Nós temos debates técnicos e provamos que a Previdência não pode ser mudada do jeito que eles estão pensando."

 

Convite - Frente - Audiência - ALMG - 12-04-2019