Publicado em 08/11/2019 por A Tarde - BA
Notícias da FAP/MG
O idoso morre mais de suicídio do que o mais jovem - entrevista

Idosos cometem mais suicídios do que jovens, alerta geriatra

Médico Leonardo Oliva, presidente da seção baiana da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

 

08/11/2019 - Apesar de a população no Brasil estar envelhecendo, a Bahia tem apenas 58 geriatras. A recomendação da Organização Mundial da Saúde é que haja um médico especialista para cada mil idosos. No estado, há um para cada 36 mil.

 

Quem mostra os dados é o médico geriatra Leonardo Oliva, que dirige a seção baiana da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. “Se a gente considerar que quase todos estão na capital, a gente tem uma população muito desassistida”. Para ele, é possível atribuir o desinteresse dos seus colegas pelas características próprias da área. “Para fazer geriatria, realmente você tem que gostar. É uma especialidade difícil, que exige você ter prazer por atender esse paciente que é mais complexo, que vai falar mais, que vai exigir mais atenção. Hoje a gente vê uma medicina mais fracionada”.


Leonardo escolheu o todo e não a parte quando ainda estava no meio do curso de medicina na Universidade Federal da Bahia. Hoje, trabalha no Instituto Longevitat, criado por seu padrinho, o também geriatra Adriano Gordilho. Volta e meia, os familiares que acompanham seus pacientes pedem para que o “doutor” faça com que eles maneirem no doce ou deixem de comer feijoada. Leonardo costuma responder que quem precisa fazer dieta é quem não envelheceu ainda. “Ele já chegou naquela idade, já mostrou que é capaz. Não vamos querer achar que a gente é que vai fazer diferença agora”.


Em entrevista à Muito, revista do grupo "A Tarde", o médico dá dicas para que todos nós possamos ter uma velhice mais saudável e fala sobre doenças comuns à idade, como o Alzheimer.

 

Uma velhice sem doenças é possível ou é uma utopia?

Há pessoas que não têm doença nenhuma. É raridade, é a menor parte da população. Tem outro grupo de pessoas que a gente chama de ‘atrasadoras’, que são aquelas que envelhecem sem doença e na terceira idade desenvolvem algum tipo de patologia. É um diabetes que chega, um hipotireoidismo, podem ser até doenças mais graves, como um câncer, a demência. E tem ainda um outro grupo formado por aqueles que adoeceram desde cedo, aos 45, 50 anos, e conseguem chegar à terceira idade. É um grande marco da medicina atual. A gente consegue, mesmo com doenças incuráveis, envelhecer e controlar bem, se seguir as orientações médicas, tomar o remédio direito. Mas, de maneira geral, e aí foi o motivo da sua pergunta, à medida que a gente envelhece, a gente acumula doença. A idade é fator de risco para várias doenças, principalmente os cânceres, as síndromes demenciais, a doença cardiovascular, que é a que mais mata no mundo. Então, acaba que a gente encontra esse paciente mais idoso tomando vários remédios, tratando várias doenças. É o mais habitual.


Como cada um pode se preparar melhor para uma velhice mais saudável?

Existem algumas recomendações que são muito bem estabelecidas do ponto de vista científico para envelhecer bem. Vamos lá: se alimentar bem; tomar as medicações e seguir as consultas médicas e recomendações de forma regular; praticar atividade física; reduzir o estresse; manter um bom círculo social e familiar; não fumar e beber pouco; dormir bem. Mas se você me perguntasse me diga uma coisa só, eu diria atividade física. Cerca de 60% da forma que a gente vai envelhecer é reflexo das escolhas que a gente faz ao longo da vida. Então, essa lista aí que eu fiz são esses 60%. Cerca de 20% é a nossa genética e os outros 20% é o ambiente que a gente vive. A maior parte são as escolhas que a gente faz.


"Cerca de 60% da forma que a gente vai envelhecer é reflexo das escolhas que a gente faz ao longo da vida".
Leonardo Oliva, geriatra


Sobre a importância do círculo social e o fato de cerca de 4,5 milhões de idosos viverem sozinhos. Esse número triplicou nos últimos 20 anos. Como a solidão afeta a saúde dessa população?

À medida que a gente envelhece, mesmo envelhecendo bem, a gente passa a precisar de certa ajuda. Isso é invariável. Uns precisam mais, outros menos. Esse número é bastante alto. É uma população fragilizada do ponto de vista social. Pode acontecer de ir ao médico e o médico passar um esquema de tratamento medicamentoso difícil de fazer e ele acabar não conseguindo seguir. Se precisar se internar, quem vai ficar com ele no hospital? Se cair, quem vai ajudar em casa? A gente passa a ter uma população que está dependendo de cuidados e não tem esse cuidado.


Sem dúvida nenhuma isso é um foco que a gente vai precisar de ajuda do governo. Os países mais desenvolvidos já têm vários programas de ajuda ao idoso. Existem programas de levar comida em domicílio, de ajudar no supermercado, de acompanhante para consulta médica...


No Brasil, a gente também vai precisar de mais instituições de longa permanência, que antigamente a gente chamava de asilo. Porque chega um momento em que o idoso, mesmo aquele que tem lucidez, capacidade cognitiva preservada, ele pode estar tão necessitado de ajuda em casa que precise estar numa instituição para viver de forma segura. Infelizmente, a gente tem pouquíssimas instituições adequadas para receber idosos. Públicas, então, quase nenhuma.

A previsão é que o Brasil tenha, em 2029, 40 milhões de idosos. Em 1950, eram 2,6 milhões. Há um consenso entre os especialistas de que o país não vem se preparando para acolher essa população. Que medidas o senhor acha que deveriam estar sendo tomadas agora pelo poder público, além dessas que já mencionou?

O primeiro foco deveria ser em prevenção, para que o idoso envelheça o melhor possível. A gente não colhe esse fruto de forma imediata, mas acho que o quanto antes a gente começar nesse ponto, melhor a gente vai chegar. Porque se a gente tiver um idoso mais ativo, ele vai precisar de menos ajuda. Se ele estiver melhor de saúde, ele usa menos o serviço de saúde. E aí precisa ter educação para a alimentação, para atividade física. A gente tem poucos locais públicos para a prática de atividade física. Eu encaminho meu paciente, mas a depender da classe social, ele não consegue fazer atividade física, porque não tem acesso, é caro. Mas depois que a população envelhece mal, lidar com esse problema é muito difícil e muito caro. A gente vai precisar de mais leito de hospital, de mais medicação, de mais instituição de longa permanência. Vira uma bola de neve.

 

A depressão está crescendo entre a população idosa, assim como os suicídios. De que maneira o senhor aborda esses temas com os seus pacientes?

De maneira geral, o geriatra consegue se aprofundar nas questões emocionais também. Na grande maioria das vezes, a depressão no idoso se mostra com sintomas físicos. É aquele idoso que está com dor exacerbada, sem apetite, perdendo peso. São sintomas que refletem muito a parte emocional, mais até do que no jovem. A incidência e prevalência de depressão no jovem e no idoso é igual. Está crescendo nas duas populações. O que acontece é que no idoso, além de ser mais difícil diagnosticar, também é mais difícil tratar.


Eles têm uma sensibilidade maior às medicações, existe toda uma modificação do organismo que reflete em aumento de efeitos colaterais. E habitualmente é a pessoa que toma mais remédio, então a interação medicamentosa é mais complexa. O ponto mais delicado é que o idoso morre mais de suicídio do que o mais jovem. As tentativas de suicídio na população idosa são mais efetivas. E existe uma população que está sob risco maior de cometer suicídio. São aqueles que vivem sozinhos, que têm doenças crônicas, dor mal controlada... Então, o idoso morre mais de suicídio que o jovem, mesmo a quantidade de depressivos sendo igual. Suicídio é um tabu, mas a gente sabe que quando está diante de um paciente que tem sintomas depressivos, essas perguntas têm de vir de imediato: alguma vez o senhor já pensou em acabar com a própria vida? Já planejou alguma coisa?


Tem uma pesquisa que mostra que um percentual muito alto das pessoas que cometeram suicídio estiveram no médico 30 dias antes. Você pensa assim: ‘Poxa, alguém poderia ter visto, ter tomado uma medida ali’. E não é que esteve num médico especialista, esteve em qualquer médico. Mas estava pedindo ajuda. Será que a gente não poderia ter feito alguma coisa para ter evitado isso? É preciso estar atento. E é um preconceito que a gente precisa vencer. Não é porque a pessoa envelhece que fica triste. Pode estar com depressão, e precisa ser tratada. É claro, toda pessoa tem direito a ficar triste. Quando se perde alguém, e na terceira idade isso acontece com mais frequência, a gente tem o direito de ficar triste. Mas tristeza é uma coisa e depressão é outra. Da mesma forma que a pessoa não precisa ter dor porque ficou velha, não precisa ser esquecida porque ficou velha, ou é incapaz porque está velha. A gente precisa quebrar esses preconceitos para tratar bem do idoso.

 

"Não adianta a professora de português ficar fazendo palavras cruzadas em casa quando envelhece, achando que está treinando o cérebro. Não está."
Leonardo Oliva


Você falava dos esquecimentos, e acho que um dos maiores medos que as pessoas têm é do Alzheimer. Em que medida é possível prevenir de fato a doença, ou está mais para uma loteria?

A gente sabe hoje que tudo que faz bem para o coração também faz bem para o cérebro. Assim, de novo, é aquela lista lá de cima. Comer bem, fazer atividade física regular, diminuir estresse. A gente pode diminuir o risco de doenças neurodegenerativas, de doenças cerebrais, das síndromes demenciais, fazendo essas coisas. Do ponto de vista específico do cérebro, parece que você desafiar seu cérebro também pode ter um fator protetor. Aprender coisas novas. Não adianta a professora de português ficar fazendo palavras cruzadas em casa quando envelhece, achando que está treinando o cérebro. Não está.

Ela vai ter que aprender a tocar um instrumento, a dançar. Nem adianta o professor de matemática ficar fazendo conta. Esse vai ter que fazer palavras cruzadas. É sair da zona de conforto cerebral. Isso gera uma coisa que a gente chama de neuroplasticidade. Dá para prevenir o Alzheimer? Dá para diminuir o risco com essas atitudes. O que acontece é que, uma vez instalado, a gente não tem cura. O tratamento hoje ainda é muito ruim do ponto de vista medicamentoso.


Houve avanços nos medicamentos?

A gente tem remédios hoje liberados para diminuir a velocidade de perda. Não é nem frear. Ou seja, vai continuar perdendo cognição, memória, capacidade de fazer as coisas. A gente chama os remédios de sintomáticos. É para diminuir um pouquinho o que está acontecendo, mas não muda o processo cerebral da doença. Não há previsão de chegar nada novo até 2025. Mas só para completar essa questão da demência, a gente tem dois tipos principais de síndrome demencial: a doença de Alzheimer e a demência vascular. A demência vascular ocorre por pequenos AVCs no cérebro, lesões pequenas que vão destruindo os neurônios e gerando problema para a memória e para a capacidade de a gente fazer as coisas. Esse é um tipo de síndrome demencial que vem crescendo muito. E é uma doença muito mais prevenível com aquelas medidas que a gente falou, porque já é uma doença cerebrovascular. Então, tem a ver com as medidas para evitar um infarto, por exemplo: comer pouca gordura saturada, pouco carboidrato refinado, pouco alimento industrializado, não fumar, beber pouco, praticar atividade física.


Você dizia que é preconceito a gente achar que idoso é esquecido. Então todos os esquecimentos, que se chamavam antes de caduquice, sempre que isso aparecer é preciso procurar ajuda médica? Há algum limite de normalidade?

A gente sabe que à medida que o cérebro vai envelhecendo, a nossa capacidade cerebral também diminui. Isso é global. Assim como nosso músculo não é tão forte, o nosso rim não funciona tão bem, o nosso pulmão, o nosso coração... Mas, habitualmente, esse limite é quando a gente para de conseguir fazer as nossas atividades. Uma pergunta que eu sempre faço é: o idoso ainda é capaz de manejar suas finanças? Esse é um sinal de alerta muito grave. Ninguém dá o seu dinheiro para outra pessoa cuidar só porque ficou velho. É claro que você pode precisar de ajuda para ir ao banco, precisar de ajuda para mexer no computador, porque agora é tudo online, mas ninguém vai deixar você manejar para onde vai cada dinheiro.


No momento que você começa a ter uma pessoa fazendo isso por você, é um sinal de alerta importante. Infelizmente, a maioria das pessoas só tem a atenção para o que pode estar acontecendo, um problema de demência, ou quando a capacidade de fazer as coisas já está muito prejudicada, ou quando existe distúrbio de comportamento. Está agressivo, está agitado, está se comportando socialmente mal. Mas o problema começou muito antes. A gente foi deixando como se fosse: ‘Ah, não, é normal, tá velho, tá esquecido’. Tem que estar muito atento. Eu considero que mesmo os mais jovens, se tem alguma dúvida se está esquecido ou não, merece um atendimento, merece ser visto. Mais jovem eu falo aos 60, 70 anos, tá?


Aquela pessoa que não sabe onde deixou o óculos, que esquece a chave do carro, que de vez em quando esquece uma comida no fogo porque foi fazer outra coisa. Essa desatenção está muito relacionada à depressão e ansiedade. Mas acho que merece ir ao médico, merece tratar também isso, se está atrapalhando sua vida.


A Bahia é o estado com o maior número de centenários no Brasil. O que pode explicar esse número? E de que tipos de cuidados específicos essa população precisa?

Não consigo entender exatamente por que isso acontece. A gente não tem essa qualidade de vida na Bahia para dizer, não é? Mas uma especulação, pensando aqui, será que é por que a gente vive de uma maneira mais leve? Ou se relaciona bem com nossos amigos e familiares? Com certeza tem também um componente genético aí. Famílias mais longevas tendem a ter filhos também mais longevos. Mas o que a gente precisa nessa população é ter cuidado para não fazer coisa errada. As intervenções médicas feitas na população muito idosa, acima dos 80 anos, devem ser feitas com muita cautela. A chance de a gente dar um remédio e esse remédio fazer mal é muito grande, às vezes maior do que fazer bem. Na medicina, o direcionamento de como a gente vai fazer as coisas é baseado em estudo científico. Só que os estudos são com uma população mais jovem. Extrapolar esses dados é muito difícil. O mesmo vale para o exame que você vai propor. Vou propor uma colonoscopia num idoso de 80 anos?

A chance de dar problema é muito grande. A gente tem que ter essa análise crítica. Às vezes, o açúcar está um pouquinho alterado e aí diz assim: vamos ter que fazer uma dieta. E corta um monte de alimento, o idoso passa a ter pouco prazer na dieta, desnutre. Está sendo muito pior do que o açúcar que está um pouquinho alto. Foi uma coisa preventiva, mas que não fez nenhum sentido para ele. Vários familiares chegam assim: ‘Doutor, diga que ele não pode comer tanto doce. Diga que não pode comer feijoada’. E eu falo: mas ele pode. Quem tem que fazer dieta é a gente. É você, sou eu. A gente tem que fazer dieta para chegar nessa idade. Mas se não está fazendo mal... Deixe ele com esse prazer. Quanto menos intervenção a gente faz nessa população muito idosa, na maioria das vezes é melhor. Ela já chegou naquela idade, já mostrou que é capaz. Não vamos querer achar que a gente é que vai fazer diferença agora.


"Quanto menos intervenção a gente faz nessa população muito idosa, na maioria das vezes é melhor. Ela já chegou naquela idade, já mostrou que é capaz."
Leonardo Oliva


Nós falamos dos idosos que vivem sozinhos, mas há 5,7 milhões de lares no Brasil que são sustentados por idosos. Como o senhor imagina que será o cenário daqui a alguns anos, diante das mudanças na previdência e nas leis trabalhistas?

Muitas vezes, a gente está com um paciente que poderia ter uma vida muito melhor, só que ele não pode usar o dinheiro que tem porque sustenta filho, neto, e às vezes até bisneto. Isso gera conflitos familiares e também uma pior qualidade de vida para o idoso. Você já imaginou o que é você estar chegando ao fim da vida e ter mais essa preocupação? Poxa, eu não posso morrer. A gente vê isso cada vez mais. Esse é um reflexo direto da crise financeira que a gente vive, onde as pessoas perderam muito emprego.

Acho que a visão que a gente tem que ter é que tudo bem trabalhar até mais velho. O que precisa é de um foco diferente. É melhorar a qualidade do trabalho que a gente tem. À medida que a gente envelhecer, diminuir a carga horária sem haver redução de salário, e começar a ter funções mais de ensino, de educação, usar a experiência que a gente adquiriu ao longo da vida.

 

Publicado originalmente em: http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/2092657-leonardo-oliva-o-idoso-morre-mais-de-suicidio-do-que-o-mais-jovem