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27/03/2019 - Notícias da FAP/MG
Proposta de reforma aumenta a exclusão para mais de 7 milhões de pessoas maduras
por FAP/MG e Zero Hora (RS)

27/03/2019 - Se fosse aprovada sem alterações pelo Congresso Nacional, a proposta de reforma da Previdência do governo Jair Bolsonaro aumentaria ainda mais a exclusão de 7,3 milhões de pessoas entre 50 e 64 anos de idade, que estão desempregadas e não têm aposentadoria. Uma enorme população sem renda, com baixa escolaridade e grande dificuldade para arrumar nova colocação por causa da idade.


Esse contingente mais do que dobrou nos últimos 25 anos, chegando a 7,3 milhões em 2017, dado mais atual de pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).


- Nosso estudo começou com homens, mas, nos últimos anos, focamos também nas mulheres. O recorte até 64 anos prevê a proposta de reforma da Previdência, que coloca a idade mínima de 65 anos para homens. Essa faixa sem emprego não consegue contribuir para o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) com os anos que faltam para se aposentar, é uma espécie de limbo - explica a pesquisadora do Ipea e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Ana Amélia Camarano.


A Previdência que o governo propõe prevê idades mínimas de 62 anos para mulheres e de 65 para homens, com 20 anos de contribuição para ambos. O maior crescimento dessa população no período estudado foi entre os homens: de quase 300 mil em 1992 para cerca de 1,7 milhão em 2017. Mulheres passaram de 3 milhões para 5,6 milhões no período. Como elas, tradicionalmente, ficavam fora do mercado e atuavam em atividades domésticas, os números são maiores. Cerca de 75% desses trabalhadores não têm sequer Ensino Fundamental completo.


- Também existe o preconceito do empregador em relação ao empregado mais velho. Acha que ele tem menor produtividade, menor força física, mais problemas de saúde. E, cada vez mais, consideram esse perfil difícil de se adaptar às mudanças tecnológicas - avalia Ana Amélia.


Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), referente ao 4º trimestre de 2018, aponta que a faixa acima de 60 anos representa 2,6% dos mais de 12 milhões de trabalhadores desocupados no Brasil (312 mil). A maior fatia de desempregados concentra-se entre 25 e 39 anos, com 34,4% (4,1 milhões). Os números diferem do Ipea, já que a PNAD baseia-se em amostra de domicílios e não faz recorte específico na faixa entre 50 e 64 anos.


VAGAS - O estudo do Ipea descreve o dia a dia da agência do Sine Estadual no centro de Porto Alegre, onde a presença de cabelos brancos na sala de espera virou rotina. Tanto os "nem, nem" quanto outra fatia de maduros que poderiam ser chamados de "nem, com" - sem emprego, mas já recebendo do INSS.


- Chama a atenção a procura de vagas por pessoas acima dos 50 anos. Muita gente que não está aposentada ainda. Mas também há os aposentados que não estavam mais empregados, mas que se viram obrigados a voltar a trabalhar para reforçar a renda da família - conta a coordenadora da agência, Bárbara Barbieri.


Ela destaca a dificuldade que o pouco estudo acrescenta no caminho desses desempregados mas aponta iniciativas que pretendem aproveitar o que essa mão de obra tem de melhor, como experiência e responsabilidade. Uma delas é a plataforma MaturiJobs (maturijobs.com), criada para recolocar pessoas mais velhas no mercado. O portal mapeou 2,5 mil vagas para pessoas com mais de 50 anos no Estado.


Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil teve aumento na geração de empregos para pessoas acima dos 60, mas o ritmo é inferior ao da elevação populacional. Entre o final de 2012 e 2018, a participação desses trabalhadores cresceu 1,6 ponto percentual, indo de 6,5% (5,826 milhões) para 8,1% (7,507 milhões) de todos os ocupados. Mas, no mesmo período, essa parcela de pessoas avançou 2,8 pontos, de 16,6% (26,212 milhões) para 19,4% (33,077 milhões) do total da população.

 


Jorge Rangel - ExcluídoSEM PERSPECTIVAS - Aos 53 anos, o pedreiro Jorge Rangel de Rangel diz estar no auge da sua capacidade. Construir é o ofício ao qual se dedicou por quase toda a vida, e por causa desse trabalho acabou em canteiros de obras por todo o Brasil. Jorge passou por Pernambuco, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde participou de um trabalho dos quais mais se orgulha: as obras de reforma do Maracanã.


- Trabalhei na obra da parte nova do Maracanã. Fazia de tudo um pouco, ia de carpinteiro a ferreiro. Acho que dormia umas cinco ou seis horas por dia só - lembra.


Nos últimos dois anos, atuava em Bento Gonçalves, na serra gaúcha, na construção de silos para armazenamento de grãos. A rotina impunha ficar longe de casa, na zona sul de Porto Alegre, para onde retornava a cada 15 dias. Mas no final de 2018, foi demitido e voltou para a Capital.


NEM ENTREVISTA - Jorge refez seu currículo e, quase todas as manhãs, sai para entregá-lo tanto em canteiros de obras quanto em empresas de seleção para serviços gerais. À tarde, faz o que pode para ajudar nas atividades do lar, como pequenos consertos e limpeza. Mesmo tendo começado aos 14 anos, não tem perspectiva de receber o benefício da aposentadoria. Há períodos em que atuou sem contribuir. Mesma situação vivida por milhões de trabalhadores em todo o País.


Exemplo clássico do perfil identificado pela pesquisa do Ipea, o pedreiro tem o Ensino Fundamental incompleto. Em sua busca por trabalho, tem se impressionado com a falta de interesse dos empregadores em, pelo menos, fazer uma entrevista com ele.


- Eles pegam o teu currículo, dizem que vão dar uma olhada, e pronto. Fica só nisso. A impressão é de que eles querem a gurizada mais nova, mesmo. Mas eu sei fazer coisas que essa turma jovem fica abismada de ver, e estou muito bem para trabalhar, sim. É só me darem uma oportunidade.

 

Infelizmente, a proposta é fechar ainda mais as portas e as oportunidades para tantos milhões de brasileiros, como Jorge Rangel. Tudo para que banqueiros fiquem ainda mais bilionários trilhonários e o povo na miséria total.


Com texto e reportagem de Leandro Rodrigues, publicada originalmente no jornal Zero Hora - (RS).

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